Vasculhando a blogosfera diplomática me chamou atenção o último post" do
Lanchonete do Roberto, o blog destacou uma música da Legião Urbana que lembra um pouco os conceitos de Diplomática. A canção é
Que país é esse, do CD homônimo lançado em 1987, o trecho é o seguinte:
"Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéisAo descanso do Patrão
Que país é esse?"
O discurso eminentemente político do Renato Russo (RR) traz uma boa sacada sobre o que representam os registros arquivísticos; os documentos trazem em si o DNA das ações que os geraram, o texto pode até mentir, mas o contexto, quando explícito, entrega tudo.
Acho que o RR gostava um pouco dessa visão meio soturna dos arquivos, lembrei de outra canção em que ele também explorou o tema, a genial
Petróleo do Futuro, de 1985, faixa 3 do primeiro álbum da Legião. O Riff diz bem assim:
"Filsofos suicidas
Agricultores famintos
Desaparecendo Embaixo dos arquivos"
Não há dúvidas que o trecho representa uma raivosa provocação contra a já moribunda (e foi tarde) ditadura militar. Porém incomoda que o arquivo seja representado como um lugar desses. De certa forma, acho que é, também, responsabilidade dos arquivistas o fato de os direitos das famílias dessas pessoas estarem ali para desaparecer; apodrecer, soterrados e sufocados pela falta de transparência e de vontade que está nas entranhas do nosso Estado.
Ninguém quer criar heróis, apenas colocar as coisas em seus devidos lugares. Com os arquivos seria possível julgar os responsáveis pelos crimes bárbaros cometidos por ambas as partes. Esse é um movimento que ganha força na América Latina, no Uruguai recentemente foi aprovado um
projeto que anulou a Lei de Anistia do país, lá o Estado de Exceção perdurou de 1973 a 1985, a teoria é que agora sejam revistos os atos contra a Humanidade que foram cometidos na época.
Arquivo da UnB (Invasão da UnB, em 1968)Para quem defende o argumento de que "ah, o cara só estava cumprindo ordens" , digo que até pra isso há limites e recomendo a leitura de
Eichmman em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal, da Hannah Arendt. Que permite, guardadas as devidas proporções, uma visão mais aguçada a sobre a questão da responsabilidade dos indivíduos quando inseridos em movimentos políticos tão extremados, como ditadura ou guerrilha.
Mas, retomando a idéia central do post, e pra não dizer que não falei das flores, lembro que o RR também já expressou uma faceta mais lírica dos documentos de arquivo, como quando, em 1992, ele participou do àlbum
Homem de Rua do Erasmo Carlos, gravando junto com o Tremendão a música
A Carta (olha a espécie documental aí) que dizia bem assim:
"Escrevo-te
Estas mal traçadas linhas
Meu amor!
Porque veio a saudade
Visitar meu coração
Espero que desculpes
Os meus erros por favor
Nas frases desta cartaQue é uma prova de afeição..."
Respondam, porque a carta é uma "prova de afeição"? É só o conteúdo do texto que traz essa prova ou todas as circunstâncias que envolvem a produção do objeto 'carta'? Caberia um desafio diplomático nessa, hein? Enquanto carta é prova de afeição, carteira de habilitação é prova de que você passou por todo o processo exigido para sair dirigindo por aí; quem já escutou o Álbum "Músicas para acampamento", também da Legião, conhece a hilária introdução da música Baader Meinhof Blues, onde o RR imita a voz do policial e dos adolescentes parados numa bliz:
"-- Sai do carro garoto, mão na cabeça
-- Pô, agente não fez nada!
-- Sai do carro garoto!
-- Pô, o que que é isso?
-- Documento #@!%, não quero saber,
que papo é esse[...]"
Correto pedir a habilitação, vai que o garoto fosse o Jonhy indo tirar racha na curva do diabo em sobradinho (da canção
Dezesseis, manja?). Acho interessante também a música "Perdidos no Espaço", de 1985:
"Escrevi pra você e você não respondeu
Também não respondi quando você me escreveu
Anotei seu telefone num
pedaço de papelE calculei seu ascendente no
recibo do aluguelEsqueci seu sobrenome, mas me lembro de você"
Copiado de r7. (Renato Russo, Renato Rocha, Dado, e Marcelo Bonfá)
Essa é pura Ciência da Informação-Arquivística-e-Diplomática. Além de palavras como "escrevi", "respondeu", "anotei", "telefone" "calculei", "esqueci", "lembro", todas relacionadas ao processo de cognição e também a tecnologias envolvidas na comunicação , transferência, e registro da informação; temos a citação de uma espécie documental o "recibo de aluguel" e de um suporte, o "pedaço de papel".
Seria ótimo ter mais tempo para relembrar todas as músicas da Legião (ou de outras bandas) que remetem a temas da diplomática ou da arquivística; porém ,até conseguir a ajuda de vocês, encerro com uma clássica, e pra mim insuperável, do Sérgio Reis:
"Se você pensa
Que meu coração é de papel
Não vá pensando, pois não é
Ele é igualzinho ao seu
E sofre como eu
Por que fazer chorar assim
A quem lhe ama
Se você pensa
Em fazer chorar a quem lhe quer
A quem só pensa em você
Um dia sentirá
Que amar é bom demais
Não jogue amor ao léu
Meu coração que não é de papel"
Postado por: Leonardo N. Moreira.